Não gosto de reclamar e nem reclamo da minha vida, pois estar casada com um deficiente físico é uma opção minha e de mais ninguém, mas não posso me calar diante de absurdos que não prejudicam só a mim ou a ele, mas sim a TODOS QUE NECESSITAM ANDAR PELAS RUAS DE CADEIRA DE RODAS, MULETAS OU GUIAS!
Sendo assim, preciso compartilhar com vocês a humilhação e constrangimento que sofremos no Planetário da Gávea, aqui no Rio de Janeiro.
Em 2 de Junho não fazia sol aqui no Rio, tempinho nublado, bom para passeios em lugares fechados, resolvemos ir ao Planetário da Gávea. Ao chegarmos lá, o táxi parou em frente ao Barzinho que tem ao lado do museu.
Pra começar, não tinha rampa de acesso, tive que fazer uma manobra com a cadeira de rodas para subir o meio fio.
Um segurança, muito grosseiro, me disse q o horário de abertura seria às 14 e 30, ainda eram 13 e 40. Disse também, de uma forma muito deselegante, que a entrada não poderia ser por lá, mas sim por dentro do parque até chegar ao outro lado do museu.
Quase no horário informado pelo segurança, seguimos pelo “tal” caminho por dentro do parque. O acesso é péssimo, sem conservação – até certo ponto é de pedras portuguesas em péssimo estado de conservação, pra variar - e, o restante do caminho, é todo em PARALELEPÍPEDOS, o que não oferece a mínima condição de passarmos com a cadeira de rodas.
Perguntei a dois funcionários da limpeza se haveria um outro acesso, me disseram que eu poderia entrar pela rua lateral, só que eu teria que fazer todo o caminho de volta e ir até a entrada do estacionamento, bem distante dali de onde estávamos.
Fomos até lá, saímos do estacionamento e pegamos a calçada. Até a esquina da Rua Vice Governador Rubens Berardo, tinha uma ciclovia e fomos por ela. Ao entrar nessa rua, demos de cara com uma calçada horrível, mais uma vez de pedras portuguesas e totalmente irregulares, por causa das raízes das arvores plantadas no centro da calçada, sobrando um espaço mínimo, todo destruído, para passar com muita cautela para a cadeira não virar e cair no asfalto.
Chegamos, depois de todo esse sacrifício, na entrada principal do Planetário.
A funcionária, bastante educada, veio abrir o portão para passarmos.
Perguntei onde seria a entrada de cadeiras de rodas e ela fez com a mão, que eu deveria seguir -uma subida - fazer a curva e pegar a rampa....
A partir do portão, outro caminho intransponível para uma cadeira de rodas: PARALELEPÍPEDOS novamente, até chegar a escadaria do Planetário. Mas nem era tão longo assim o caminho, ou talvez quem sabe eu achei curto comparando-o com tudo que já tínhamos passado até ali… afinal já havíamos passado por mais uma das grandes maratonas das calçadas do Rio e, naquela altura, eu estava realmente disposta a fazer mais uma mini maratona de puxar a cadeira de costas pelos paralelepípedos até próximo à escadaria.
Perguntei a moça de que era feita a rampa e então fiquei desolada de verdade... pasmem, a rampa para subir com a cadeira de rodas TAMBEM É DE PARALELEPÍPEDOS! Impossível subir!
Me senti bem constrangida e humilhada... me senti pior por ele...
sabia que ele estava se sentindo péssimo... a tal “sensação de impotência” muito comum nessas horas.Aí foi a gota d´água que faltava no meu copo...
Sabe, eu me recuso a levá-lo a lugares pagos ou não, que não nos ofereçam conforto e acesso necessários para a condição "portador de necessidades especiais".
Falei com a moça, que é funcionaria da PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO - responsável pela administração do PLANETÁRIO - que achava tudo aquilo um absurdo e ela ficou super sem graça e comovida com a situação.
Não conseguimos entrar no PLANETÁRIO! Frustração total, melancolia, sei lá, só sei que foi mais uma sensação ruim que senti. Bem ruim mesmo...
Eu não aguento mais o descaso com que os portadores de necessidades especiais são tratados pela nossas “autoridades".
As calçadas estão horríveis, muitas delas não oferecem ao menos uma rampa de acesso a rua, para podermos atravessar.
Não podemos mais pegar taxi nas BRSs, temos que atravessar a rua, subir o meio fio, para quando o taxi parar, descer novamente o meio fio e, com a porta do carona aberta, NO MEIO DA PISTA, desmontar a cadeira de rodas para embarcar os deficientes no banco do carona. Alguém acha isso normal? Fácil? Resultado disso: tá difícil de encontrar um taxista que se proponha a embarcar um cadeirante.
O que podemos fazer, quem pode nos ajudar, a quem recorrer??? Não existe!
Estão todos preocupados e envolvidos com Rio +20, Olimpíadas, Copa do Mundo e o básico não é feito...
Ficamos aqui a mercê das humilhações. Já é tão difícil a condição de ser deficiente e ainda fazem de tudo para que os deficientes sintam-se piores do que já se sentem.
A maior deficiência, em minha opinião, não é não poder andar, falar, ouvir ou enxergar, mas sim, não poder participar de uma vida comum, de fazer programas comuns. O pior de tudo para um deficiente é a MORTE SOCIAL a que são condenados a viver!
Fica aqui nosso protesto e por isso resolvemos criar o “FALANDO DE ACESSO”!
Bom dia, Marciah! Adorei a sua iniciativa em montar este blog. Tenho três filhos, dois com necessidades especiais. Também passamos por estes constrangimentos que vc relatou. Temos que ter muita força de vontade para não desanimarmos diante de tantos obstáculos que nos são impostos nesta cidade. Realmente, uma vergonha! Nesta semana resolvi procurar um curso de inglês para que eu e meus filhos pudessemos fazer. Que tristeza!!! A maioria deles sem acessibilidade nenhuma: degraus, escadas, falta de rampa, sem estacionamento... Liguei para vários cursos e, pasme, eu tinha que perguntar primeiramente, se a escola tinha degraus e não sobre a metodologia do curso e preços, por exemplo. É muito constrangedor e, o pior, a pena que a pessoa sente por não poder ajudá-la. Eu sempre digo para os meus filhos: "a pena derruba qualquer um". Finalmente encontrei um que nos tratou com toda dignidade: vaga em frente (especial), rampa de acesso e sem degraus. Ficamos super felizes! E a escola que abriu os olhos pra isso ganhou, de imediato,três alunos. E são soluções tão simples! Basta querer.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Maria Regina Abrita Victorio